Na nossa casa faltaram
muitas coisas, inclusive o sofá
Era uma casa muito engraçada,
até tinha teto, no mais não
tinha quase nada. Além das pilhas de
colchão e do armário tomado
de roupas, livros e bugigangas que levamos
no primeiro dia, o chuveiro e a campainha
só vieram uma semana depois - antes
disso cada uma tomava banho na sua respectiva
casa. Em seguida chegou a cortina que cobria
menos de dois terços (2/3) da janela.
O que nos rendeu noites mal dormidas - nos
últimos dias eu saquei minha "viseira"
e consegui ganhar alguns minutos a mais de
sono no escuro.
O frigobar nunca foi concretizado,
ficou no plano das idéias. Três
isopores habitaram nosso "apertamentozinho"
a partir da festa de inauguração
e male-má nos sustentaram até
a terceira e última reunião
- a de despedida.
É
erro pensar que aquelas, literalmente, quatro
paredes só serviram para enquadrar
nossas farras, para pendurar o calendário,
o mapa de São Paulo, uma pintura de
Monet, o mural e uns cartazes. Nosso QG presenciou
todos nossos depoimentos. Mais de uma pessoa
lá dentro e já rolavam os comentários
do dia: os entrevistados curiosos, ou não,
os fatos interessantes e também debates
picantes sobre o Projeto.
Quando nossa temporada estava
por terminar pensamos na possibilidade de
ficarmos mais, afinal, não faltavam
coisas a serem feitas, lugares a serem (re)visitados
e (re)pesquisados. Se a experiência
de morar nas curvas sensuais de Niemeyer durasse
mais que um mês talvez fosse positivo:
o saldo de assassinatos. De verdade: as brigas
foram tão poucas que até nós
mesmas estranhamos.
Mas o prazo de validade era
mesmo de um mês: na noite de sábado,
antes da festinha de despedida o chuveiro
explodiu - que os convidados não saibam
mas teve gente que ficou sem banho. O "bichinho"
- um bonequinho da Lu, na madrugada de domingo,
se calou quando foi jogado pela milionésima
sétima vez contra a parede, ele não
fez mais seu barulho característico
de vidro estilhaçando.
Vendo a casa sendo desmontada,
nossas coisas ensacoladas, lançaram
a pergunta "O que você vai dizer
quando perguntarem se essa experiência
foi proveitosa?".
"- Elementar, meu caro
Watson", diria o mais ilustre morador
de Baker Street, Sherlock Holmes, entre uma
baforada e outra de seu cachimbo.